• Fabrício Proença

A ilha mais perigosa do mundo

Há 35 km da costa de Itanhaém, no litoral sul de São Paulo, se eleva do mar uma ilha com costões rochosos e relevo irregular, coberta por vegetação nativa e curiosamente infestada de cobras peçonhentas: a Ilha da Queimada Grande ou, como chamam os pescadores, a Ilha das Cobras.

Considerada a ilha mais perigosa do mundo, o local ganhou fama com as histórias de navegadores e pescadores que, ao desembarcarem na ilha para descansar, ateavam fogo na mata para afastar as cobras. Esse recurso extremo acabou dando origem ao nome da ilha e foi responsável por colocar as já isoladas serpentes em risco de extinção.


Atualmente, a Ilha da Queimada Grande é uma Unidade de Conservação – uma Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) – e possui acesso restrito. Apenas pesquisadores e cientistas podem visitar a ilha, desde que tenham uma autorização do Instituto Chico Mendes (ICMBio) e muita coragem para adentrar um local que, além de ser infestado por serpentes, possui complicações naturais de acesso e desembarque. Não existem praias no entorno da ilha, apenas costões rochosos irregulares e escorregadios, castigados por ondas e variações de marés.

Com cerca de 430.000 m², o território da ilha é o maior serpentário natural do planeta.

E não é qualquer cobra que vive lá. São jararacas, serpentes agressivas da família Viperidae. Lá, por causa do isolamento geográfico, foi selecionada uma variedade insular, a espécie Brothrops insularis, chamada popularmente de jararaca ilhoa. Estima-se que existam cerca de 2.000 exemplares desse incrível réptil vivendo por lá, o que equivale a uma jararaca a cada 300 metros.


Espécie singular

Diferente das jararacas continentais, que costumam viver no chão atrás de roedores e anfíbios, as jararacas insulares adotaram hábito arborícola para dar o bote em aves que visitam a ilha – as caças mais comuns e abundantes no local. Possuem a pele mais clara e uniforme, variando do bege ao marrom claro, e podem atingir até dois metros de comprimento.


O veneno dessas serpentes é extremamente letal e mais potente que o das demais jararacas, uma vez que precisa agir rapidamente nas presas antes que voem para longe. Seus efeitos sobre os humanos são devastadores.

Quando picada, uma pessoa sem atendimento pode morrer em até duas horas por falência múltipla dos órgãos.

Atualmente, o ICMBio e o Instituto Butantan organizam expedições na ilha e seu trabalho de pesquisa, apesar de arriscado, é fundamental não apenas para a descrição e identificação da espécie, mas também para sua conservação e proteção. Pois mesmo com todas as dificuldades e restrições de acesso, traficantes costumam recolher espécimes para comercializar no mercado de animais silvestres. Em face do histórico da ilha e dessas ameaças atuais, a jararaca-ilhoa foi incluída pela União Mundial para a Conservação da Natureza (IUCN) na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas como “criticamente ameaçada”.


Por Fabrício Proença

Biólogo e professor de Ciências


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Fontes

- Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) Disponível em: https://www.icmbio.gov.br/portal/ultimas-noticias/20-geral/10210-conhecendo-a-ilha-da-queimada-grande-e-seus-habitantes

Crédito da foto: João Marcos Rosa

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