• Fabrício Proença

A ameaça letal do vírus Ebola

Atualizado: 29 de Nov de 2020

Em 26 de agosto de 1976, na vila rural de Yambuku - República Democrática do Congo -, o professor e diretor escolar Mabalo Lokela começou a apresentar febre repentina, dores pelo corpo, vômitos e diarreia. Ninguém podia imaginar o que viria depois.

Mabalo foi internado às pressas num hospital local com suspeita de malária. Porém, os sintomas se agravaram e o homem passou a sangrar pela boca, nariz e reto. Em 8 de setembro de 1976, após severas convulsões, Mabalo teve falência múltipla dos órgãos e morreu.Tinha 44 anos.


A fim de respeitar as tradições, o hospital liberou o cadáver de Mabalo para que retornasse à sua casa, onde a família iria prepará-lo para os rituais fúnebres. Dias após o enterro, parentes de Mabalo, pacientes do hospital e inclusive as freiras belgas que haviam cuidado de seu tratamento começaram a apresentar os mesmo sintomas.


A doença, até então desconhecida, se espalhou rapidamente e era fatal, o que chamou a atenção de equipes médicas estrangeiras e forçou o regime de quarentena na região.

O primeiro surto foi contido com apoio da OMS (Organização Mundial da Saúde), mas seu saldo foi de 318 casos e 280 mortes, numa taxa de mortalidade de 88%.

Mabalo Lokela, primeira vítima registrada do mal, tornou-se o paciente zero.


Origem

Os pesquisadores e médicos que atuaram nessa terrível epidemia logo identificaram o agente causador: um vírus do gênero Ebolavírus, o Ebola. E o mal passou a ser chamado de DVE (Doença por Vírus Ebola). A origem desse nome está relacionada à Mabalo Lokela.


Poucos dias antes de sua entrada no hospital, o professor congolense fizera uma viagem para a fronteira com a República Centro-Africana, numa região próxima ao rio Ebola, um afluente do rio Congo.

O nome do rio, que significa "negro" em Lingala, uma língua típica do Congo, acabou sendo usado para batizar o vírus, pois tudo indica que Mabalo - o paciente zero - teria adquirido a virose nessa região.

Febre hemorrágica

A DVE é uma febre hemorrágica de alta letalidade causada por quatro das cinco espécies de Ebolavirus: o Ebola-Zaire, o Ebola-Sudão, o Ebola-Bundibugyo e o Ebola-Costa do Marfim.


A espécie Ebola-Reston não causa a doença em humanos, apenas em macacos, e foi descoberta num surto que atacou primatas num laboratório em Reston, na Virgínia, EUA.


Sintomas

Os primeiros sinais da doença lembram os de uma gripe comum, o que dificulta seu diagnóstico. Fraqueza, fadiga, dores pelo corpo e febre alta surgem repentinamente. Outros sintomas como diarreia e vômitos também são comuns no início da infecção.

A pessoa infectada pelo Ebola normalmente manifesta a doença de 8 a 10 dias após o contato com o vírus.

Com o avanço da doença, surge a fase hemorrágica, quando o indivíduo começa a apresentar hemorragias subcutâneas, olhos avermelhados, vômitos, fezes e tosse com sangue.


A evolução para a fase hemorrágica indica agravamento da doença e em mais de 80% dos casos leva o indivíduo à morte por perda de sangue e falência múltipla dos órgãos.


Dependendo da espécie do vírus, essa taxa de mortalidade pode chegar a 90%.


Transmissão

Os cientistas descobriram que os vírus são encontrados em animais silvestres e que estes podem transmiti-los para os humanos.

Atualmente, existem fortes evidências de que os hospedeiros do vírus Ebola sejam morcegos frugívoros que vivem em cavernas da região tropical da África Ocidental.

Antílopes e alguns primatas também podem ser transmissores da doença quando contaminados, indicando que o início dos surtos possa ser desencadeado pelo contato dos humanos com esses animais ou até mesmo pelo consumo da carne destes.


Uma vez infectados, os humanos podem transmitir a doença uns para os outros através do contato direto com sangue ou fluidos corporais como saliva, muco, suor, urina, fezes, vômito, lágrimas, leite materno e sêmen.


Fômites (objetos contaminados) como seringas e agulhas, também são potenciais transmissores do vírus.


Outras formas de contaminação são: contato com cadáveres de vítimas de DVE (que ainda são contagiosos) e sêmen de sobreviventes (que continuam a ser infectantes até sete semanas após a cura da doença). O ar não é um meio de dispersão natural do Ebola.


Medidas de contenção

Para evitar a propagação do Ebola, as autoridades de saúde pública isolam hospitais, comunidades ou regiões inteiras em períodos de quarentena. Escolas e estradas são fechadas a fim de conter a disseminação da doença.

No caso dos pacientes infectados, não existe tratamento específico, sobrando apenas medidas paliativas para resolver os sintomas como o uso de reguladores de coagulação, medicamentos contra enjoo e ansiolíticos.

Vacinas estão atualmente sendo desenvolvidas nos EUA, Canadá, Reino Unido e Mali num ritmo sem precedentes. A OMS divulgou, inclusive, que em janeiro de 2015 iniciará testes de vacina na África.


Normalmente os profissionais da área de saúde e as pessoas em contato com os pacientes são as que tem mais risco de contrair a DVE. Países com bons sistemas de saúde pública, portanto, apresentariam menor risco de epidemia, uma vez que suas medidas de isolamento seriam mais eficientes.


Entre essas medidas, podemos citar: uso de vestuário adequado, luvas, máscaras e trajes pressurizados, chuveiros de descontaminação e substâncias esterilizantes.

A DVE é uma doença classificada como de nível de biossegurança 4 (risco biológico), o nível mais alto entre as infecções, o que exige laboratórios altamente especializados para sua manipulação e estudo.

Surtos

Desde o primeiro surto, vários outros emergiram, ceifando várias vidas. Ainda em 1976, outra epidemia atingiu o Sudão, afetando 284 pessoas e matando 151. Entre 1995 e 2013, diversos surtos pontuais assustaram a África Ocidental, mas nenhum foi tão arrasador quanto o de 2014.


A eclosão foi em dezembro de 2013, com uma criança de 2 anos infectada na Guiné. A partir daí, a doença se alastrou rapidamente, afligindo cinco países africanos: Guiné, Serra Leoa, Libéria, Nigéria e Senegal.

A OMS declarou a epidemia como emergência de saúde pública mundial no ano de 2014, alertando sobre a possibilidade do Ebola se alastrar.

Pouco tempo depois, em 30 de setembro, o primeiro caso fora do continente africano foi diagnosticado nos EUA, em Dallas. E o primeiro caso de contágio fora da África ocorreu em 6 de outubro, na Espanha, com uma enfermeira que tratava um padre doente transferido para Madri.


No entanto, nada se compara ao estado de calamidade que os países africanos sofrem com o vírus. Ajudas internacionais partem de diversas organizações como a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEEAO), o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) e a Comissão Europeia. Entidades humanitárias como os Médicos sem Fronteira e a Cruz Vermelha também oferecem seu apoio para as vítimas da doença. Até agora (2020 – data deste texto) já foram registrados cerca de 8.900 casos e mais de 4.000 mortes pelo vírus.


Por Fabrício Proença

Biólogo e professor de Ciências


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