• Fabrício Proença

Galileo Galilei, o mensageiro sideral

Atualizado: 8 de Dez de 2020

Em março de 1610, um folheto de 24 páginas que havia sido publicado em Veneza, causou enorme repercussão na comunidade científica da época, trazendo novidades que mudariam para sempre a visão que as pessoas tinham sobre o Universo.

O documento se chamava “Sidereus Nuncius”, o Mensageiro Sideral em latim, e estampava na primeira página o nome de seu ousado autor, o astrônomo italiano Galileo Galilei.


Considerado por muitos o fundador da ciência moderna, Galileo, nascido em Pisa, Itália, no ano de 1564, despertou deslumbramento e controvérsia com suas observações sobre um Universo que ninguém jamais vira, dando o golpe final no modelo geocêntrico (aquele que diz que a Terra é o centro de tudo).


Esse feito foi possível graças à sua engenhosidade e paixão pela ciência. Alguns anos antes da publicação de seu polêmico “Mensageiro Sideral”, Galileo descobriu que cientistas na Holanda estavam desenvolvendo aparelhos com lentes chamados de telescópios que podiam aumentar a visão de objetos distantes.


Observando o céu

Imediatamente, o astrônomo foi buscar mais informações sobre o engenho e reuniu conhecimento suficiente para construir um para seu próprio uso. Chamou-o de “Perspicillium”, que significa óculos em latim. Não tardou e começou a desenvolver outros ainda melhores e com maiores aumentos. Um, inclusive, aumentava a imagem dos objetos em até 30 vezes, o que era um grande avanço para a época.

Foi através das lentes de seus próprios telescópios que Galileu pôde observar o espaço como nunca antes.

Mistérios que o Universo guardara desde os primórdios da Humanidade agora estavam sendo descortinados pela mente ágil e preparada do astrônomo italiano.


Informativo sobre o espaço

O “Siderius Nucius” tratava de diversos assuntos. Falava das montanhas da Lua, das fases de Vênus, dos satélites naturais de Júpiter, dos anéis de Saturno e das manchas solares. Em suas páginas ficava claro o espanto de Galileo ao se deparar com a numerosa quantidade de estrelas que nossos olhos são incapazes de ver, formando um intenso aglomerado de pontos de luz em nossa Via Láctea.


Todas aquelas descobertas ampliavam significativamente a extensão do Universo conhecido até então. E, em sua essência, as descrições das observações corroíam inevitavelmente os alicerces do paradigma científico que ainda se mantinha em vigor.


Luas de Júpiter

Galileo apresentou a descoberta de quatro corpos celestes que giravam em torno do gigante Júpiter. Chamou estes satélites naturais de “estrelas Mediceanas” (Medicea Siderea).


No entanto, os nomes usados para definir as quatro grandes luas jupterianas foram escolhidos pelo astrônomo alemão Simon Marius em 1614: Ganimedes, Calisto, Io e Europa.


A simples presença desses corpos girando em torno de Júpiter representava uma aberração diante da visão estabelecida de Universo. Nada poderia estar girando em volta de outro corpo celeste que não a Terra!


Manchas solares

Observações do Sol também foram feitas e, para não ter que olhar diretamente para o astro, Galileo projetava a imagem das lentes sobre uma folha de papel. Essa prática lhe permitiu desvendar o fenômeno das manchas solares.


Na publicação, várias ilustrações feitas pelo próprio astrônomo mostravam o comportamento dinâmico do Sol, ora com muitas manchas, ora com nenhuma, mostrando que a superfície do astro não era perfeita e estática como os cientistas e filósofos da época supunham.


Na verdade, aquelas manchas revelavam duas coisas: um padrão de deslocamento que sugeria que o Sol estava girando em torno do próprio eixo, ou seja, que ele estava executando o movimento de rotação, e que sua consistência era fluida e não sólida como acreditavam.


Revolução científica

Para se ter uma ideia do quanto essas afirmações foram perturbadoras, imagine-se vivendo entre os séculos XVI e XVII, com a sorte de ter nascido numa família abastada e de ter tido instrução. Dentro daquele contexto, você teria crescido aprendendo a cosmologia aristotélica e o geocentrismo de Ptolomeu. As instituições de ensino, todas sob a tutela da Igreja, teriam lhe ensinado que a Terra estaria imóvel no centro do Universo e que todos os outros astros, tidos como esferas perfeitas, girariam ao seu redor formando os dias e as noites.


Por outro lado, se você tivesse inclinação para as Ciências, teria se deparado com um livro chamado “De Revolutionibus Orbium Coelestium” ("Sobre a Revolução das Esferas Celestes") escrito por um polonês auspicioso chamado Nicolaus Copernicus. Neste livro, o paradigma científico daquele momento era colocado em cheque por uma nova forma de entender o Universo, o modelo Heliocêntrico que coloca o Sol como o centro e tendo os planetas girando ao seu redor, inclusive a Terra.


Galileo havia tido contato com essas ideias durante sua formação. Afinal, nascera e vivera em pleno fervor do Renascimento Científico. Para ele, a visão de Copérnico era revolucionária e deveria ser aceita pela sociedade.


Seguindo os passos de Copérnico

Após ter inventado “La bilancetta”, a balança hidrostática, e ter descoberto o princípio do movimento pendular, ele se viu com o desafio de tornar o sonho de Copérnico real, ou seja, aprimorar e estabelecer a visão heliocêntrica como a verdade por trás do mecanismo do Universo. E todas aquelas descobertas o ajudariam nesse processo.


Dessa forma, sentiu-se encorajado a publicar suas ideias em um livro chamado “Istoria e dimostrazioni intorno alle machie Solari” (“Avaliação e Evidências das Manchas Solares”), onde reforçava a descoberta de que o Sol não era uma esfera de cristal perfeita e sólida. Em outras palavras, Galileo estava demonstrando que os céus eram “imperfeitos” e ajudando a expulsar o homem de sua confortável posição de “umbigo” do Universo.


Para os pensadores daquele século – muitos ainda sob os ditames do paradigma ptolomaico do geocentrismo – e principalmente para a Igreja Católica, aquelas descobertas eram uma afronta. Tanto que, em 1616, a Inquisição declarou a visão de que o Sol é o centro do Universo uma heresia, incluindo o livro de Copérnico e todos os outros que apregoavam a mesma doutrina no “Index Librorum Prohibitorum” (O “Índice de Livros Proibidos” da Igreja) e proibindo qualquer um de mencionar o Heliocentrismo. Galileo foi convocado a prestar depoimento diante do Tribunal do Santo Ofício, cujo dirigente àquela altura era o Cardeal Roberto Bellarmino.


Galileo se apresentou e mesmo diante da resistência da Igreja, que determinava não haver provas conclusivas em relação ao Heliocentrismo, manteve sua posição, proclamando que continuaria seus estudos. O Cardeal, que tentara dissuadi-lo a abandonar a defesa do modelo de Copérnico, puniu Galileo, proibindo-o de divulgar e ensinar a ideia desde então.


Papa Urbano VIII

No ano de 1623, o cardeal Maffeo Barberini, velho amigo de Galileo, assumiu o pontificado sob o nome de Urbano VIII. Tal mudança de poder na Igreja Católica se revelou extremamente positiva para Galileo que conseguiu autorização de Urbano para expor suas ideias.


Não tardou e o astrônomo publicou um livro polêmico intitulado “Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo (“Diálogo sobre os dois grandes sistemas do mundo”), onde voltava a defender com toda a força o heliocentrismo. O tom usado no texto desagradou muitos representantes da Igreja e inclusive o Papa, que se sentiu particularmente ofendido.


Condenação final

Como consequência, Galileo foi novamente julgado pela Inquisição e dessa vez teve que renunciar publicamente a suas ideias. Todos os seus livros e publicações foram incluídos no “Index Librorum Prohibitorium” e foi condenado a permanecer em prisão domiciliar até o fim de sua vida.


Apesar de ter sido censurado e de ter tido sua liberdade tolhida, Galileu ainda executou outros trabalhos e, no intuito de revelar ao mundo que ainda mantinha sua posição em relação ao heliocentrismo, publicou em 1638 o livro “Discorsi e Dimostrazioni Matematiche Intorno a Due Nuove Scienze”. O livro, que fora lançado na Holanda (país onde a Igreja Católica não tinha mais influência devido à Reforma Protestante), foi considerado sua obra derradeira.


Pai da Ciência moderna

Em 1642, nove anos após o julgamento, doente e cego, o cientista que transformou a história da ciência morreu ainda cumprindo a pena executada pela Inquisição. Seu corpo foi enterrado na Basílica de Santa Cruz, em Florença, na Itália. Seu legado permitiu o desenvolvimento da ciência moderna, revolucionando para sempre o entendimento que o homem tem sobre o universo.


No entanto, para a Igreja Católica o reconhecimento desse grande cientista demorou demais. Sua obra só foi removida do Index em 1846 e, no final do século XX, o papa João Paulo II reconheceu o equívoco da condenação de Galileu, retirando todas as acusações de heresia contra o astrônomo e reconhecendo-o como físico genial.


Por Fabrício Proença

Biólogo e professor de Ciências


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