• Fabrício Proença

O planeta mais quente do Sistema Solar

Com o mais poderoso efeito estufa do Sistema Solar, Vênus, o segundo planeta depois do Sol, consegue ser o mais brilhante e tórrido mundo entre seus vizinhos.


Desde a antiguidade, o planeta Vênus tem sido relacionado ao amor e à beleza. Como terceiro objeto mais brilhante no céu noturno - só perde mesmo para o Sol e a Lua -, Vênus era admirado sempre que aparecia na abóbada celeste. Por isso, fora batizado com o nome da deusa romana do Amor, Vênus, aquela que encarnava todos os maiores atributos femininos como o charme, a sedução, o sexo e a fertilidade. Sua presença nos céus influenciava rituais, decisões de guerra e ciclos de plantio, encantando os homens com seu brilho mágico.

É normalmente antes do amanhecer ou depois do anoitecer que Vênus desponta no céu. Mais brilhante do que as estrelas ao seu redor, acabou sendo confundido com uma estrela pelos antigos, o que lhe valeu nomes como "estrela matutina" ou "estrela vespertina".

Mistérios

Por séculos, diversos astrônomos tentaram analisar e descrever a superfície venusiana, mas não conseguiam obter tanto êxito. As densas nuvens presentes no planeta refletem tanto a luz do Sol, que pouco podia ser observado desse astro com os instrumentos disponíveis naquela época.

Foi apenas no século XVII, através do advento dos telescópios, que novas informações começaram a ser desvendadas.

O astrônomo italiano Galileu Galilei, por exemplo, descobriu que Vênus apresentava fases como a nossa Lua.

E foi a observação do fato de Vênus alterar suas dimensões à medida que se deslocava na abóbada celeste durante seu ciclo, que Galileu pôde reforçar seus argumentos em defesa do Heliocentrismo, pois tal aspecto revelava que o planeta girava ao redor do Sol.


Nos séculos seguintes, os astrônomos tentaram descobrir, através de diversos artifícios, maiores detalhes sobre a superfície de Vênus. No entanto, o brilho intenso do planeta escondia seus segredos, instigando a curiosidade dos cientistas, como a deusa do amor que seduz os mortais através de seu véu de mistério. Nem mesmo com o surgimento das fotografias na astronomia foi possível revelar os detalhes mais íntimos de Vênus. Os registros fotográficos ajudaram bastante na revelação de vários aspectos de outros astros, mas pouco serviram ao estudo do que existe por trás da cortina de segredos de Vênus. Eles apenas reforçaram a informação de que naquele planeta existem nuvens espessas e densas.


Exploração espacial

Durante o século XX, as sondas espaciais lançadas, tanto pelos Estados Unidos quanto pela antiga União Soviética, conseguiram enfim desvendar os mistérios tão bem guardados de Vênus.

Ao entrarem na órbita do planeta, as sondas puderam mapear a superfície através de fotografias e detectores de ondas de rádio, ultravioleta e infravermelho.

Além disso, muitas sondas foram programadas para adentrar a atmosfera venusiana, dirigindo-se para a superfície do planeta a fim de captar informações mais precisas e detalhadas. Todas as informações de relevo e atmosfera que existem hoje sobre Vênus são provenientes dessas sondas que, apesar de terem conseguido obter sucesso em suas missões, não duraram muito tempo por lá devido às agressivas e severas condições ambientais do planeta.


Aspectos físicos e geológicos

Vênus é um lugar inóspito. Milhares de vulcões já foram identificados e cerca de 85% de sua superfície está coberta por rocha vulcânica.

Muitos vulcões venusianos são imensos, possuindo mais de 100 quilômetros de diâmetro e mais de mil metros de altitude.

Além disso, são encontrados diversos canais abertos por rios, não de água, mas de lava incandescente. O maior deles atravessa 7.000 quilômetros, sendo mais comprido que o rio Nilo, na África. Crateras de impacto também são numerosas, revelando que o planeta já foi atingido por grandes meteoros.


Atmosfera agitada

Vênus é quase que totalmente coberto por nuvens densas e pesadas que são capazes de refletir cerca de 75% da luz do Sol.

As nuvens são constituídas basicamente por dióxido de enxofre e dióxido de carbono em altas concentrações, o que gera o mais poderoso efeito estufa do Sistema Solar. Tanto que a temperatura média em Vênus é de 480ºC, conseguindo ser maior do que a de Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol.

A densa atmosfera possui uma pressão 92 vezes maior do que a da Terra, semelhante àquela verificável em profundidades oceânicas de mais de um quilômetro. Imagine as temperaturas e pressões violentas que as sondas enviadas até lá tiveram que suportar antes de serem destruídas.


Existe água em Vênus?

Em relação à água, Vênus é um planeta carente desse composto. Lá não existem oceanos ou rios e as quantidades de vapor d’água na atmosfera são quase insignificantes. Por causa da proximidade com o Sol, os cientistas acreditam que ele teria perdido grande parte de sua água por um processo de dissociação, o qual teria espalhado o hidrogênio para o espaço exterior junto com o vento solar.


Rotação retrógrada

Diferente de todos os outros planetas do Sistema Solar, Vênus gira de leste para oeste. Se estivéssemos em Vênus e se não existissem tantas nuvens pesadas por lá, veríamos o Sol nascer no oeste e se pôr no leste. A hipótese mais aceita para explicar isso é que talvez Vênus tenha sido atingido por outro corpo celeste durante sua formação. Por causa desse estranho movimento retrógrado, um dia em Vênus é mais longo que um ano.

Enquanto uma translação completa se faz em 225 dias terrestres, a rotação se completa em 243 dias terrestres.

Planeta irmão

Apesar de tantas peculiaridades e apresentar um cenário tão inóspito e desolador, Vênus é o planeta irmão da Terra. Com tamanho, massa, densidade e constituição similares aos da Terra, Vênus é classificado como um planeta do tipo terrestre ou rochoso, sendo o único, em todo o Sistema Solar, com características tão parecidas com as do nosso planeta. Além disso, é nosso vizinho mais próximo. Em seu movimento ao redor do Sol, consegue se aproximar de nós quase 40 milhões de quilômetros, aparecendo no céu como o terceiro corpo celeste mais brilhante. Suas características permitiram aos astrônomos conhecer mais sobre as origens e transformações de nosso Sistema Solar. Bem como de nossa Terra.


Por Fabrício Proença

Biólogo e professor de ciências


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